quinta-feira, 2 de abril de 2020

UM BOM SINAL

Fotografia: Mitchell Kanashkevich














UM BOM SINAL


Esta primavera
Quebra-nos os ossos
E conduz à beira da loucura

Tassos Denegris, A Outra Versão[1]



voltei hoje a espreitar a rua:
não há motivo para alarme.
o tentilhão continua a saltitar por entre as macieiras floridas,
no jardim de infância a relva cresce um pouco basta e hirsuta,
a pátina assentou nos baloiços vazios,
só muito raramente o asfalto é pisado,
nenhum sinal de vida nos cafés e drogarias.
num fiozinho de estendal alguém esqueceu uma mola amarela.
o silêncio e o som acariciam-se com dedos invisíveis.
belos e hipnotizantes, como fogueiras à noite,
as palavras iluminam-se e despedaçam-se em centelhas.
velhos bules reenchemo-los nós com carqueja e passiflora.
digam lá se não é tudo isto
um bom sinal!

01.04.2020




[1] Tradução Coletiva – Fundação Casa de Mateus

sexta-feira, 27 de março de 2020

TEATRO


Fotografia: Marius Cinteză














TEATRO

é uma cena inolvidável,
o ator beija os seios da atriz em público.
a luz no palco parece mais forte,
rebrilha na pele, 
faz sobressair as pequenas veias azuis.
o beijo ecoa no silêncio, trespassa
(quase casto, não destoasse a palavra aqui).
é uma cena inesquecível.
a sombra cobre os rostos que sonham
para cá do pano.
são belíssimos os seios,
tocante e destemido e nu o tocar.
mais para cá ainda, no fundo de nós, 
chocalham memórias e palavras.
que indecência,
a atriz deixar-se beijar como quem se enovela
em nuvens de algodão!
é uma cena memorável.
não será aquilo amor?
como se pode fingir tão bem uma coisa tão séria?
pergunto, como?

27.03.2020


sábado, 21 de março de 2020

UM DIA CONCRETO

Fotografia: Frank Dalemans













UM DIA CONCRETO

perguntaram a Ludwig Wittgenstein se aquele era um dia concreto

o que é um dia concreto? 
o que é a porra de um dia concreto? 
nunca soube a resposta que deu o dinamarquês

um dia concreto,
concreto como um campo de cizânia ou de cicuta à nossa frente,
concreto como Tōru Takemitsu em Nostalghia,
concreto como o cheiro da serralha ou de uma cebola ou do chewing gum na tua boca,
concreto como um copo de água sobre a mesa,
um dia concreto como estar acordado diante de um grande relógio de parede,
como olhar nos olhos os olhos que nos olham ao espelho,
um dia concreto como sentir ardor na bexiga,
como ter uma pedra a rolar entre os dedos,
um dia concreto como tossir sem blandícia por causa do pó,
como escrever numa folha interminável a sequência de Fibonacci,
como apalpar um traseiro,
como sentir o estrugido a queimar,
um dia passado entre o frio mistral do vento e o abrasador da luz,
um dia concreto a escutar grilos ou a limpar ramelas,
concreto como fazer uma salada com escarolas ou rúcula ou alface,
como ler de pé Bernardo Atxaga ou Philip Levine,
ou fumar uma imitação barata de um Cohiba,
como vilipendiar alguém ao telefone por causa do condomínio,
um dia concreto,
concreto como todos os dias concretos, cheios de pressa e de vagar,
mãos nos bolsos, nas luvas, na pele, prontas a segurar o caderno
e a estropiar mais um poema,
um dia concreto como amar as Quatro Estações de Vivaldi e não ter mais que dizer,
concreto como ter a barba crescida e nenhuma lâmina ou sabão em casa,
nem vontade para escanhoar o atordoado rosto quase de novo infantil,
concreto como a autocomiseração,
como ouvir na rádio a quarta de Brahms, conduzida por Bernstein,
concreto como uma maçã, ao contrário, obclávea, tonta, 
como o gemido súcubo dentro da faca que a corta em dois e em quatro,
concreto como levar um murro ou um par de cornos
e andar semanas magoadamente a cair sobre os ossos,
concreto como sacos de lona às costas de um farrapeiro,
como o fedor de um animal em decomposição sobre o asfalto,
concreto como o reflexo da chuva e o peso de um beijo sobre as faces

voltemos, portanto, ao começo:
perguntaram a Wittgenstein
(creio que foi Russell quem o fez, enquanto alambazava o cachimbo)
o que é para si um dia concreto?

um indaga no putativo hipopótamo escondido entre os móveis da sala,
o outro meditava em matéria e em antimatéria, na carta que haveria de escrever a Niels Bohr.

o que é para si um dia concreto?
era uma conversa fiada, de filósofos.
a nenhuma conclusão chegaram, como é fácil (aliás) de suspeitar

20.03.2020


Leitura do poema (audiobook)


segunda-feira, 16 de março de 2020

A CADEIRA, A PESTE, O POETA

Fotografia: Nico Surace













A CADEIRA, A PESTE, O POETA

atualizam a cada hora os dados da peste.
no meu quarto há uma cadeira 
aveludada e vazia
onde os números e as palavras se confundem:

fiquem em casa, não disseminem ideias, loucura, o vírus.
olhem as belas túlipas raiadas 
do vosso jardim,
sintam a blandícia do sol 
como em penas de pintassilgo,
acariciem, ainda que longe, 
as ervas dançantes ao vento

sobre as coisas abateu-se um frio novo
que não sabem ainda reparar: os novos mortos 
observam

a cadeira de que falo sento-me nela agora,
aqueço-lhe as partículas de pó

um dia dirão:
nela caiu o imprestável muitas vezes,
houve a peste e ele escrevia versos

16.03.2020


poema lido | audiobook

domingo, 15 de março de 2020

CASA VELHA


Fotografia: Andreas Agazzi















CASA VELHA

é nos sonhos que a casa regressa: as teias de aranha ensarilhadas nas vigas, as mascarras nas paredes tocadas pelo lume, o pó sobre os móveis e na face dos vidros, o cotão a dançar por baixo das camas, a borra caindo devagar no fundo das cafeteiras

à porta da cozinha vejo de novo os pedaços de abóbora e as cascas de batata. mãos diligentes virão com eles preparar a lavadura dos porcos

em baixo, na terra batida, ficam os galinheiros, o estábulo, a pocilga. é o reino da penumbra e do frio, o reino das alfaias e dos lagares, o reino do medo: aqui todos comem em silêncio: os pintos, os vitelos, os bácoros, os roedores, os escaravelhos, a própria morte

é neste saibro que os sonhos me doem sempre mais, como se não soubesse como limpar-me de toda esta memória repleta de dor e de esterco. a ele regresso todas as noites no corpo de uma criança, ou no corpo de um desses mortos que não perdoam, para vaguear à toa entre paredes que não existem já, entre quartos e desvãos e caves (creio-o) que não desaparecerão nunca

15.03.2020

poema lido | audiobook

sábado, 14 de março de 2020

CAFÉ

Fotografia: holger droste














CAFÉ

bebo café,
continuarei a bebê-lo
como quem lança cuspo às mãos
ou um fio de água às pedras
que se talham

as noites são às vezes
cruéis

às vezes impenetráveis
no som rouco que desce pelas
paredes

às vezes insípidas

não é fácil buscar esse outro
lugar das memórias, onde
nos guardados do óxido

esse outro lugar mavioso,
feérico,
das palavras que por nossa causa
foram um dia ditas com
amor extremo

as noites às vezes são 
densas

é preciso por isso parafinar
as mãos,
impermeabilizar-lhes o ardor

bebo café,
continuarei a bebê-lo

até que o poema resgate o belo
que há, que houve, na vida

até ser dia

até que se britem os estuporados
átomos da melancolia

até ser leda a luz
que atravessa a forma informe
das palavras

até o café frio mais não ser
do que o nosso próprio sangue
caindo em nós,
muito de cima, muito
dentro, sem amparo

14.03.2020


poema lido | audiobook

quinta-feira, 12 de março de 2020

BRINCÁVAMOS ÀS IMPRESSÕES

Fotografia: Piet Flour
















BRINCÁVAMOS ÀS IMPRESSÕES

brincávamos às impressões:
o sol é um par de cerejas que se pendura
na orelha.
não, é um velho lavagante que regressa
ao mar.
ou então as tuas mãos húmidas quando me tocam
com cio.
o sol canta como castanholas 
dentro do poema.
era tudo verdade, não havia limite
ao que dizíamos

05.03.2020